PORTUGAL 2020, QUE REPROGRAMAÇÃO?
.. lamenta-se que não tenha havido vontade política para acolher nesta reprogramação investimentos fundamentais para a coesão territorial, sinalizados e justamente reclamados no Alentejo e noutras regiões, de entre os quais, a título exemplificativo, não poderemos deixar de referir modernização da ferrovia, o acesso rodoviário a Beja e a ampliação do hospital distrital, remetidos para as calendas. Incompreensível porque não se descortina fundamento técnico ou financeiro que justifique tamanha insensatez e insensibilidade. Inaceitável, quer pela pertinência e urgência do investimento, quer pelos montantes em causa, residuais, sublinha-se, face aos montantes ora em perspetiva de reafetação, sem dificuldades em acomodar aqueles projetos, assim se cultivassem princípios como os da subsidiariedade e equidade regional e inter-regional.
Portugal 2020 assenta num acordo de
parceria celebrado entre Portugal e a
Comissão Europeia onde se desenhou
a estratégia nacional para o período
2014-2020, tendo sido negociado
ainda num quadro de crise financeira
e económica, onde sobressaíam as dificuldades
no financiamento à economia e o desequilíbrio
das contas públicas, com repercussões no
emprego e na coesão social.
O Governo de então, em coerência com a opção
neoliberal e política de austeridade extrema, acordou
um quadro financeiro privilegiando a competitividade
e a internacionalização, com clara menorização
da coesão social e territorial, deixando cair
políticas públicas cuja pertinência era (e é) mais que
óbvia.
A febre das privatizações também chegou
aos FEEI, Fundos Europeus Estruturais de
Investimento, mediante a quase que duplicação
dos fundos da política de coesão para apoio a privados,
de forma tão exagerada que acabaram por congelar
largos milhões de euros do PT2020, como é o
caso de uma parte expressiva dos 1.500M€ alocados
à IFD (Instituição Financeira de Desenvolvimento,
vulgo Banco de Fomento).
Sucumbiu-se diante da Comissão Europeia face a
exigências como as do limite à consignação de fundos
para o apoio a escolas, vias de comunicação,
equipamentos sociais e de saúde e património, por
via das denominadas prioridades negativas e da desmesurada
exigência de instrumentos habilitadores,
como os mapeamentos e outras figuras cujas siglas
ainda hoje temos dificuldade em decifrar.
Ainda no segundo semestre de 2016 já se sinalizavam
indicadores na execução do PT2020 que apontavam
para uma tendência, aquém dos do QREN em
período homólogo, que justificavam a premência de
uma reprogramação, em 2017, ainda que de cariz
técnico por ausência de avaliação intercalar (programada
para 2019), porém, questionando algumas das
disposições do acordo de parceria, negociadas em
circunstâncias adversas, não fazendo qualquer sentido
que ainda perdurem.
Foi preciso entrar em 2018 para reconhecer
quanto a execução do programa patina, situação
indissociável do baixo compromisso nalguns programas
operacionais, das opções estratégicas e de
outros fatores constrangedores, como a burocracia
e complexidade dos normativos reguladores do
acesso aos apoios. Efetivamente, comparando com
o QREN, no final do primeiro trimestre, o PT2020
comprometeu menos cinco por cento das dotações
(62 por cento/67 por cento) e executou menos seis
por cento (21 por cento/27 por cento).
Os quatro programas operacionais temáticos
– POCI, Poise, POCH e POPH –, embora com um
compromisso em linha com o do anterior ciclo de
programação, têm uma execução com menos cinco
pontos percentuais.
Por sua vez, nas regiões de convergência, que
consignam um terço das dotações globais, constatam-
se indicadores que suscitam justificadas preocupações,
muito abaixo dos observados no QREN
– menos 16 pontos no compromisso e menos cinco
pontos na execução – bem como dos indicadores
médios no PT2020, cujo compromisso é de menos
13 pontos e execução de menos três pontos.
Nas regiões autónomas, os mesmos indicadores
estão em linha com os do QREN e acima dos
indicadores médios do PT2020. Enfim, talvez uma
consequência da autonomia regional…
É neste quadro que o Governo avançou com uma
proposta de reprogramação, cuja negociação com a
Comissão Europeia decorrerá a muito breve trecho.
É uma proposta sem ousadia, que não questiona opções
estratégicas e condicionantes iniciais do acordo
de parceria, apesar da mudança das circunstâncias
e da leitura que já é possível fazer dos resultados
do modelo adotado. Podendo subsistir alguma
compreensão quanto ao alcance da proposta – face
à inexistência de avaliação formal –, na nossa modesta
opinião, tal não impediria de se tentar ir um
pouquinho mais longe, contribuindo para que o desempenho
do PT2020 se aproxime do dos ciclos de
programação anteriores e para a minimização dos
riscos de devolução de apoios, legitimando assim os
cortes que se anunciam nos fundos para Portugal no
pós-2020. Pelo menos no que toca à coesão territorial
é incompreensível quão tímidas são as medidas
perspetivadas, dando um sinal que vai influenciar
negativamente o próximo ciclo de programação.
Do que se conhece da proposta de reprogramação
sabe-se que mobilizará 1.388M€, 80 por cento
dos quais adormecidos no Banco de Fomento –
compreendendo 800M€ inicialmente subtraídos aos
PORegionais. Somente 40 por cento do valor da reprogramação
será reafetado ao território, consignado
a prioridades de investimento com maior
procura.
Ainda que desconheçamos o detalhe da repartição
territorial, foi anunciado que a reafetação no
Alentejo será de 108M€, tendo também sido dado
destaque à cativação neste programa operacional
de 50M€ para apoio ao lançamento do hospital de
Évora.
Agora, fica-se na expetativa da revisão das dotações
das prioridades de investimento insuficientemente
dotadas no Alentejo, como as que enquadram
o apoio a escolas, áreas de localização empresarial,
património cultural, equipamentos sociais e, principalmente,
os planos de ação de regeneração urbana
promovidos pelos municípios mais pequenos, os denominados
centros urbanos complementares, corrigindo
a injusta participação que lhes coube para
apoio à reabilitação e valorização dos centros históricos
(19,3M€ para 30 municípios, com um valor
médio por beneficiário de 0,64M€, quando no
Centro e no Norte este rácio é de 1,09M€ e 1,62M€,
respetivamente) e compensando-os pela boa prestação
demonstrada (compromisso 86 por cento e execução
24 por cento).
Por outro lado, lamenta-se que não tenha havido
vontade política para acolher nesta reprogramação
investimentos fundamentais para a coesão
territorial, sinalizados e justamente reclamados no
Alentejo e noutras regiões, de entre os quais, a título
exemplificativo, não poderemos deixar de referir
modernização da ferrovia, o acesso rodoviário
a Beja e a ampliação do hospital distrital, remetidos
para as calendas. Incompreensível porque não
se descortina fundamento técnico ou financeiro que
justifique tamanha insensatez e insensibilidade.
Inaceitável, quer pela pertinência e urgência do investimento,
quer pelos montantes em causa, residuais,
sublinha-se, face aos montantes ora em perspetiva
de reafetação, sem dificuldades em acomodar
aqueles projetos, assim se cultivassem princípios
como os da subsidiariedade e equidade regional e
inter-regional.