Alvitrando
Aqui se dão alvíssaras e trocam ideias sobre temas gerais, o Alentejo e o poder local, e vou dando notícias das minhas reflexões sobre temas da actualidade e de acontecimentos que achar que devem ser divulgados por esta via.
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Jul 14

publicado por Zé LG às 10:08
Alcáçovas / Alvito - Feiras
Comentário no Viana Já

Há muito que as feiras deixaram de ser aquele lugar (para muitos o único),onde as pessoas faziam as compras anuais de utensílios, sementes, roupas e outros bens. Também há muito que as feiras deixaram de ser um dos poucos locais onde a família se podia divertir em carrosséis, carrinhos de choque ou barraquinhas de tiro. Ficou-nos a nostalgia da feira medieval, mas a verdade é que não prescindimos do carro à porta de casa, dos passeios ao fim-de-semana no centro comercial, da variedade de oferta e preços das grandes superfícies, da internet e de todas as distracções que o maravilhoso mundo moderno nos proporciona. Não é por acaso que há quem, piscando o olho, julgue que a única coisa de jeito, na feira de Alcáçovas, foi o Summer Spot (o que acho ofensivo para todos aqueles que se recusam a baixar os braços e com o seu trabalho e presença fizeram aquela feira). Para o melhor e para o pior, estamos no século XXI, como dizia o poeta, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.

A sentença de morte da feira de Alcáçovas foi assinada no dia em que abandonou o centro da vila. De aí para cá tem sido uma lenta e penosa agonia, mascarada pela permanente injecção de dinheiros da Autarquia, Câmara e Junta de Freguesia. O mesmo se passa em inúmeras localidades do país - em muitas a feira desapareceu mesmo de vez. Aqui bem perto temos o exemplo da feira de Alvito que depois de ter sido tirada do centro da vila, desterrada e maltratada, perdeu de vez aquele encanto medieval que o enquadramento do casario e do castelo lhe conferiam. Resistirá um pouco mais, por ser a feira dos frutos secos e por ser a última feira da região alentejana, mas isso de nada lhe servirá, uma vez violada naquilo que realmente a fazia única, é hoje uma feira igual a qualquer outra. Pode-se dizer que estas feiras, à semelhança de muitos dos eventos ditos “culturais”, se encontram ligadas à máquina. Estão num estado comatoso, no dia em que a máquina do dinheiro público for desligada, o mais certo é morrerem, pois já pouco ou nada representam.

O antigo modelo da feira de Alcáçovas é uma das baixas do nosso progresso. A sua falência tem-se vindo a agravar pelos reajustamentos que as famílias se vêm obrigadas a fazer nesta adaptação à realidade onde finalmente aterrámos. E se as pessoas não têm dinheiro para gastar, os carrosséis e barracas de feirantes, também não vêm - a menos que lhes paguem, o que julgo já ter acontecido no passado. Numa sociedade regida pela oferta e procura, é por demais evidente que não há procura para uma feira incapaz de atrair pessoas da região - porque de uma feira sem atractivos se trata; porque se localiza num local inóspito; porque sucede um mês após a Semana Cultural; porque acontece numa época do ano em que as pessoas estão mais a pensar em poupar para as férias (ou ir um ou dois fins-de-semana à praia), ou porque, a maioria, estão demasiado ocupadas em tentarem sobreviver.

Baixar os braços, desistir? Não! Não sou partidário do bota abaixo, do dizer mal só por dizer mal. Criticar sim, mas propor também. E eu proponho um regresso às origens, entre o Largo Alexandre Herculano e o Campo da Bola (sim é possível sobre a relva sintética protegida), numa fusão com a Semana Cultural. Teria muito mais público da vila, atrairia uma maior quantidade de visitantes dando a conhecer Alcáçovas, dinamizaria bastante mais o pequeno comércio local, seria possível mostrar in loco a arte chocalheira e, bem gerido, sairia mais barato que o conjunto dos dois eventos.

“Algo só é impossível até que alguém duvide e acabe por provar o contrário” Albert Einstein
Anónimo a 31 de Julho de 2014 às 10:02
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