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Alvitrando

Aqui se dão alvíssaras e trocam ideias sobre temas gerais, o Alentejo e o poder local, e vou dando notícias das minhas reflexões sobre temas da actualidade e de acontecimentos que achar que devem ser divulgados por esta via.

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Aqui se dão alvíssaras e trocam ideias sobre temas gerais, o Alentejo e o poder local, e vou dando notícias das minhas reflexões sobre temas da actualidade e de acontecimentos que achar que devem ser divulgados por esta via.

"Como não ser feminista? Como não erguer a voz?"

Zé LG, 09.03.24

432148677_10219355189631006_1645467154206969203_n.jpg«Quando andava na escola primária os meninos fugiam atrás das meninas para lhes levantarem as saias. Elas gritavam. Eu encostava-me à parede do recreio, procurava a invisibilidade e, em silêncio, agradecia não ser moça do seu agrado.

A primeira vez que um homem me forçou a um beijo na boca eu tinha 8 anos. Foi na Vidigueira, à porta do café que existia em frente ao antigo edifício da rádio. Ele tinha a idade dos meus pais e eu sabia quem era. Só contei à minha mãe o ano passado. Fez-se silêncio!

 

A primeira vez que um homem me apalpou o peito na rua eu tinha 12. Foi em Beja, no passeio das vivendas ao lado do Seminário. Era sábado, verão e eu ia ao dentista. Tinha vestidas umas calças de ganga e uma camisa azul com flores e botões. Virei a esquina e voltei para casa. Disse que a consulta tinha sido cancelada.

A primeira vez que um homem se masturbou à minha frente eu tinha 13. Estava na praia e afastei-me para uma caminhada à beira-mar. O único homem que se cruzou comigo, baixou os calções e masturbou-se direito a mim. Contei aos meus pais e eles avisaram os nadadores-salvadores. Mas para quê identificar um homem de calções vermelhos na praia se a única coisa que eu tinha de fazer era deixar de fazer caminhadas sozinha?!

A primeira vez que uma rapariga me bateu porque o namorado olhou para mim eu tinha 14. Foi em Beja, à tarde, enquanto atravessava o Jardim Público com o walkman na mão e os phones nos ouvidos. Só depois de uns sopapos e uns puxões de cabelos percebi o que estava a acontecer.

A primeira vez que um grupo de rapazes me bateu eu tinha 17. Estava na Manta Rota. À terceira vez que o mesmo grupo me assediou cheguei-me ao balcão e pedi um copo de água. Dirigi-me a eles: Repete lá o que disseste! E quando repetiram atirei-lhes o copo de água à cara. Houve cadeiras e mesas derrubadas. O meu namorado e os amigos tiraram-me de lá às costas. Horas depois haviam de me seguir de carro. Quando me apanharam numa rua vazia, barraram-me o caminho e, com um murro, abriram-me o lábio. Ah, a humilhação de uma rapariga lhes fazer publicamente frente!

A minha mãe levou-me a apresentar queixa na Polícia. O pai do meu namorado disse que eu não devia andar com blusas tão curtas que deixavam ver o umbigo. Ah, o umbigo, essa parte do corpo tão profundamente erótica e pecaminosa numa rapariga de 17 anos. Afinal, eu estava a pedi-las! Existia como rapariga, por isso estava a pedi-las.

A primeira vez que apedrejei um homem se me assediou na rua eu tinha 18 anos. Foi em Beja, depois de almoço, na avenida entre o pavilhão gimnodesportivo e as piscinas. Acabámos os dois na esquadra. O processo foi arquivado.

Quando procurei um advogado ele disse-me: Não tens um grupo de amigos que o apanhe e lhe dê um enxerto de porrada? A justiça, que é dos homens, não me iria proteger do assédio no espaço público.

Houve uma altura em que as minhas amigas e amigos me disseram que iam deixar de sair comigo porque havia sempre confusão. A confusão não era ofenderem-nos, humilharem-nos, assediarem-nos. A confusão era eu ser incapaz de ignorar e revoltar-me.

As mães das minhas amigas raramente as deixavam sair à noite. Também não gostavam que elas se dessem comigo. Eu era má influência: tinha muita liberdade. Mais de 20 anos depois uma delas pediu-me desculpas de lágrimas nos olhos.

Quando tinha 17 anos engravidei. Nunca quis ser mãe. Nem aos 17 nem aos 40. Um aborto clandestino custou à minha família e à do meu namorado o rendimento de um mês inteiro. As instalações eram frias, num edifício velho na zona antiga da cidade. A enfermeira que realizava o procedimento explicou-me: Se isto se souber irás a julgamento quando já tiveres 18 anos e podes ser presa. Tu e eu. Tens a certeza disto? Compreendes?

Sim, eu tinha certeza! Mas não, não compreendia por que é que a decisão sobre o meu corpo não dependia exclusivamente de mim mas de um conjunto de homens sem útero que legislavam sobre ele. Mas não, não compreendia por que é que a sociedade me forçava a ser mãe ou a submeter-me a uma intervenção clandestina sem qualquer segurança ou acompanhamento médico. Não, não compreendia por que é que criminalizavam a minha sexualidade. Se te pões debaixo dele… Actividade sexual feminina nunca por prazer, apenas para procriação. Claro!

O pai do meu namorado pôs-lhe as malas à porta. Retrocedeu depois. A mãe disse que deixaríamos de ter acesso aos quartos quando estivéssemos lá em casa. Quando andava no liceu estive na fila da frente dos protestos por Educação Sexual nas escolas. Já nessa altura sabia a falta que ela fazia também às famílias.

A anestesia foi mal dada. Paralisou-me o braço. Senti tudo o que me fizeram. Gritei. E sempre que gritava e chorava lembrava-me que tinha de o fazer baixinho. Se nos ouvissem da rua podia ir presa assim que fizesse 18 anos. O meu direito a um aborto seguro nunca obrigou ninguém a abortar. Como, pois, não ser exclusivamente minha esta decisão?

Quando o Não venceu o primeiro referendo à despenalização da interrupção voluntária da gravidez eu tinha 15 anos. O Sim só chegou quando eu já tinha 24. Aquela experiência fria, dolorosa e potencialmente fatal poder-me-ia ter sido evitada. Passaram mais de 25 anos sobre a despenalização. Esta é a primeira vez que falo publicamente sobre isto. Porque a lei mudou mas o julgamento público não.

Tive na adolescência um namorado ciumento e controlador. Fui, numa fase já adulta, ciumenta e controladora. Tornei-me depois assumidamente feminista. Tive a oportunidade de lhe pedir desculpa. Mas sei que as marcas que lhe deixei não foram muito diferentes daquelas que todas estas experiências me foram deixando.

Uso botas de biqueira-de-aço desde os 12 anos. Pasmem-se! Não é só pela sua beleza.

Este excerto é apenas uma ínfima parte da minha história enquanto mulher. Mas esta não é uma história individual. É colectiva. Esta é também parte da história de todas as mulheres que conheço, que têm nomes, idades, origens e experiências diferentes mas, simultaneamente, tão iguais a esta. Esta história existe exclusivamente porque sou mulher. Como, pois, não ser feminista?

É mais um 8 de março. Daqui a dois dias há eleições legislativas. Como, pois, não erguer a voz? Que as nossas histórias, em todas as suas dimensões, deixem de ser remetidas ao silêncio (como se não existissem).» Lisa Ferro, aqui.