A utilidade do voto
Aproxima-se mais um momento em que somos chamados a votar, desta vez para a Presidência da República, no próximo Domingo, dia 18.
Sempre que se realizam eleições fala-se sempre na utilidade do voto e há sempre quem apareça a pedir o voto útil em si, nos seus ou nos que apoia.
A primeira utilidade do voto é a da sua utilização, porque ao não votarmos não se estamos a dar utilidade a um direito que até há cinquenta anos não era de todos, havendo muitos que não o podiam exercer ou que, ao exercê-lo, o faziam de forma condicionada. E se não votarmos estamos a abster-nos de contribuir com o nosso voto para uma escolha política, seja ela qual for, e, talvez mais grave, estamos a desvalorizar o voto e o direito a ele, que foi tão difícil de conquistar para todos.
A seguir é que se coloca a questão de se saber que maior utilidade podemos dar ao voto votando neste, naquele ou noutros. E isso depende de diversos factores, sendo talvez o mais importante e decisivo a avaliação que fazemos do contributo que o nosso voto pode dar para ajudar a alcançar a solução política que mais desejamos.
E isso não tem a ver exclusivamente com a vitória da candidatura que preferimos mas também com as posições relativas das diversas candidaturas. Ou seja, a nossa candidatura preferida pode não ter hipóteses de ganhar as eleições mas pode, com a ajuda do nosso voto, alcançar um votação que reforce a sua posição e a sua capacidade de resistir e ganhar força para poder ter influência na vida política e na sociedade. Porque este papel não se esgota nas eleições.
O primeiro esforço que todas as candidaturas deviam fazer era o de combater a abstenção e procurar que os que se se sentem tentados a abster-se votassem e votassem nelas. E só depois apelar ao voto dos votantes habituais nos concorrentes.
Nas últimas eleições para a Presidência da República a abstenção ultrapassou os 60%. Apenas quatro em cada 10 eleitores votou. Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito com 61% dos votos. Ou seja, foi eleito com os votos de menos de um quarto dos eleitores.
Estes números mostram que é nos possíveis abstencionistas que os candidatos devem apostar e tentar conquistar o seu voto e não esforçarem-se tanto por roubar votos às candidaturas concorrentes. Com isso, se forem bem sucedidos, não estão a conseguir enfraquecer os adversários mas sim eventuais aliados, politicamente mais próximos.
Nas últimas eleições presidenciais, a candidata apoiada pelo PS, Ana Gomes, obteve cerca de 13% e os candidatos apoiados pelo PCP, João Ferreira, e pelo Bloco de Esquerda, Marisa Martias, alcançaram, em conjunto, pouco mais de 8% dos votos.
Assim, se João Ferreira e Marisa Matias tivessem desistido e todos os que neles votaram tivessem votado em Ana Gomes, esta teria tido 21%, ou seja, cerca de um terço da votação alcançada por Marcelo Rebelo de Sousa.
Por outro lado, se Ana Gomes tivesse conseguido convencer um pouco mais de 20% dos que se abstiveram a votar na sua candidatura teria ganho as eleições, sem necessidade de qualquer voto das candidaturas mais próximas politicamente, e seria hoje a Presidente da República. E mesmo assim a abstenção ainda teria sido de 40%.
Estas eleições presidenciais são, de todas, as que têm mais candidatos. São as mais disputadas pela quantidade de candidatos mas o mesmo não se pode dizer da qualidade dos mesmos. Isso observa-se desde logo pela dificuldade revelada, por quase todos, de assegurarem os votos dos eleitores que votaram nos partidos que os apoiam, nas últimas Legislativas. Mas confirma-se no debate político que têm mantido, que resvalou para os golpes baixos, as acusações uns aos outros de quem é pior e tem menos competências para ser Presidente da República, mostrando alguns desconhecimento pelas competências do cargo e retomando o confronto partidário.
Assim, não é de estranhar a baixa popularidade de todos eles evidenciada pelas inúmeras sondagens e as dúvidas sobre quem poderá passar à segunda volta, dada por todos como garantida.
O que é de estranhar é que, mais do que apelar ao voto dos possíveis abstencionistas, alguns insistam no voto útil de possíveis eleitores de outros candidatos próximos politicamente, e até na desistência destes, quando não conseguem assegurar o pleno dos votantes nos partidos que os apoiam.
São estratégias que, mais do que mostrarem competência e confiança dos candidatos e dos que os apoiam, revelam falta de confiança em si mesmos e nos eleitores.
Pensem bem, ignorem eventuais pressões que sintam para vos condicionar e exerçam livremente o direito de voto, porque este é secreto.
Até para a semana!
LG, 13/01/2026 Pode ler e ouvir aqui.
