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Alvitrando

Aqui se dão alvíssaras e trocam ideias sobre temas gerais, o Alentejo e o poder local, e vou dando notícias das minhas reflexões sobre temas da actualidade e de acontecimentos que achar que devem ser divulgados por esta via.

Aqui se dão alvíssaras e trocam ideias sobre temas gerais, o Alentejo e o poder local, e vou dando notícias das minhas reflexões sobre temas da actualidade e de acontecimentos que achar que devem ser divulgados por esta via.

Combater a erva daninha

No próximo dia nove vamos de novo votar, desta vez para as autarquias locais.
Desde há alguns meses que se regista a agitação própria destas alturas. Surgiram, ou acentuaram-se, as críticas aos autarcas, estabeleceram-se contactos (centenas de milhares em todo o país) para as listas de candidatos ou de apoiantes ou para se prepararem os programas eleitorais.
As eleições autárquicas são as que mexem mais com as populações e as que mais pessoas mobilizam.
Constituem, ou deviam constituir, um momento alto de cidadania, de participação popular activa porque se trata de escolher os protagonistas e as soluções para o futuro colectivo das nossas terras e populações.
Nem sempre isso acontece, quer pela forma como os candidatos são escolhidos quer pelas soluções apresentadas, que, por vezes, não passam de meras intenções irrealistas ou propostas desajustadas das verdadeiras necessidades e possibilidades. Nem sempre é feito um exercício de auscultação de entidades e pessoas e de avaliação da capacidade de concretização das propostas que se apresentam.
Já era tempo de ser dado um salto qualitativo quer no processo de escolha dos candidatos quer na elaboração dos programas eleitorais. Neste último caso, torna-se necessário o recurso a conhecimentos e meios técnicos para aprofundar as necessidades e anseios das populações e elaborar os programas eleitorais de forma a que constituam verdadeiros compromissos com as populações, transformando-se, a seguir às eleições, nos planos plurianuais que a lei obriga.
A forma como é preparada a campanha eleitoral deixa antever o tipo de gestão que cada candidatura irá exercer se sair vencedora. O valor atribuído às características (perfis) dos candidatos, a importância dada ao contacto com as populações e a sua mobilização para a participação activa, os meios utilizados na elaboração dos programas eleitorais e o tipo de compromisso que estes encerram e o tipo de campanha eleitoral realizada são bons indicadores do tipo de gestão que cada candidatura irá exercer.
Os programas eleitorais, que deveriam constituir compromissos sérios dos candidatos com os eleitores, muitas vezes não passam de mais um meio de propaganda enganosa porque são apresentados e distribuídos como qualquer outro produto e apresentam propostas irrealizáveis e são tardiamente distribuídos, não permitindo a sua apreciação pelos destinatários.
Felizmente que já vivemos numa democracia consolidada e madura em que as pessoas percebem que as eleições são importantes para a sua vida colectiva próxima mas que não são o último dia das suas vidas.
Infelizmente a nossa democracia não está ainda tão aperfeiçoada que permita a alguns eleitores perceberem que o que está em causa é o futuro próximo da sua terra e da população de que faz parte e não o seu futuro pessoal, isolado do povo que integra, e, por isso, muitos votam a troco da promessa fácil de emprego para si ou para os seus ou de poderem fazer o que a lei e os regulamentos não permitem.
Nos últimos tempos têm-se multiplicado as opiniões e as notícias sobre os cancros do poder local – desrespeito pelo ordenamento do território com impactos negativos no meio ambiente e positivos nos especuladores imobiliários, patos bravos, autarcas e técnicos que viabilizam projectos inadmissíveis; negócios escuros com ou através de clubes de futebol; enriquecimento ilegítimo de eleitos e técnicos autárquicos, falta de isenção e abuso na admissão e gestão de pessoal e outras acusações de enorme gravidade.
Já foram indiciados de crimes graves muitos autarcas, alguns considerados como autarcas modelo pelos seus partidos. Alguns voltam a candidatar-se pelos seus partidos ou em listas independentes, nalguns casos com o apoio das estruturas locais dos seus partidos. É o caciquismo na sua expressão máxima.
A maioria dos processos arrasta-se pelos tribunais e poucos ainda chegaram ao fim. E destes alguns tiveram sentenças que ninguém compreende.
Fala-se em gestão negociada de processos entre os partidos que têm estado no governo e o vice-presidente da Câmara Municipal do Porto afirmou que: “Existe promiscuidade entre diversas forças políticas, dirigentes, famosos escritórios de advogados e certos grupos empresariais”, “O urbanismo é, na maioria das câmaras, a forma sub-reptícia de transferir bens públicos para a mão de privados”, “Tive pressões ilegítimas de todos os níveis: do PSD, de outros partidos, dos mais diversos lados”.
Há milhares de autarcas sérios que têm como único objectivo servir as populações o melhor que podem e sabem. Não podem ser todos metidos no mesmo saco. Não podem sentir vergonha de serem autarcas porque alguns só querem ser autarcas para se servirem das mordomias legítimas e principalmente para se amanharem, seja através de negociatas seja através de favores obtidos para si ou concedidos a familiares, amigos ou correligionários.
Esta situação é indigna e inadmissível e tem que ser encarada como uma erva daninha que tem de ser combatida eficazmente antes que degrade ainda mais a imagem do poder local e dos que o exercem honradamente e leve eleitores, tomando a parte pelo todo, a votar em quem lhes promete mais favores pessoais.
jlopesguerreiro@sapo.pt
Alvito,28.08.05

PUBLICADO NA REVISTA MAIS ALENTEJO, Nº 56, ACABADA DE SAIR.

8 comentários

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