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Alvitrando

Aqui se dão alvíssaras e trocam ideias sobre temas gerais, o Alentejo e o poder local, e vou dando notícias das minhas reflexões sobre temas da actualidade e de acontecimentos que achar que devem ser divulgados por esta via.

Alvitrando

Aqui se dão alvíssaras e trocam ideias sobre temas gerais, o Alentejo e o poder local, e vou dando notícias das minhas reflexões sobre temas da actualidade e de acontecimentos que achar que devem ser divulgados por esta via.

Desabafos

Zé LG Zé LG, 02.05.07

A inveja e o individualismo, que nos caracterizam enquanto povo, têm consequências desastrosas na construção do nosso futuro colectivo.

Enquanto para outros povos o sucesso dos outros funciona como estímulo à ambição e à competição, isto é, pretendemos fazer mais e ir mais longe do que os outros, entre nós gera a inveja maldizente e paralisante.

Enquanto noutros povos o espírito e o trabalho colectivo, de grupo ou comunitário já faz parte dos seus genes, entre nós continuamos a querer fazer tudo sozinhos, o que nos impede de realizarmos mais e de alcançarmos objectivos mais ambiciosos.

A par disto, há ainda o privilegiarmos a propriedade à posse, isto é, gostamos e queremos ser donos das coisas, das ideias, dos projectos e propostas e, até das pessoas.

Como se fosse preferível ser proprietário a fruir a posse das coisas, ou seja, parece ser mais importante ter um automóvel do que usá-lo.

Como se os projectos, propostas e ideias só fossem boas se forem nossas. Quantos projectos, propostas e ideias não são abandonados ou mal aproveitados porque, como não são nossos, não os valorizamos nem os realizamos?

Chega a ser trágico verificar isto na prática e, por mais que tentemos, não conseguirmos mudar. É a comunidade e são as pessoas individualmente que acabam por sofrer as consequências nefastas desta postura.

A quando este espírito latifundiário vai estar presente nos que exercem o poder, seja ele qual for, e dominar as relações entre as instituições? – Só me interessa se for meu, se for eu a mandar, a fazer o que me apetecer ou até a não fazer nada porque é meu.

Em vez de promoverem um diálogo construtivo e frutuoso falam sozinhos sem ouvirem os outros e satisfazem-se com os seus pontos de vista.

Em vez de colaborarem só fazem o que conseguem fazer sozinhos mesmo sendo evidente que, em conjunto, poderiam fazer mais, com ganhos para cada parte e para todos.

Em vez de cooperarem competem, não para tentarem fazer mais mas para denegrirem a imagem dos outros.

Quando não conseguem fazer também não deixam os outros fazer, sem conseguirem ter a humildade e a coragem de reconhecer as suas limitações. – Não aproveitamos as terras que temos mas não as vendemos nem as arrendamos a quem o pode fazer.

Ter, serem proprietários, donos de alguma coisa mesmo que de coisa pouca, sempre foi a sua ambição porque os latifundiários sempre foram os que tiveram tudo eles também querem. Também querem ser como a outra gente.

Por isso, quando alcançam o poder apropriam-se do que têm para governar. Não para administrarem com mais rigor mas para mandarem como se fossem, de facto, proprietários, donos todos poderosos.

Se a tudo isto poderem juntar um canudo é a realização completa. Latifundiário e doutor ou engenheiro em simultâneo é a realização completa. É o poder do ter com o poder do saber.

Era assim dantes, na realidade. É assim agora, na figuração. O que importa é o que parece.

Até tiram cursos não para exercerem as respectivas profissões mas para terem um canudo, para terem um título.

Dantes, era preciso, a todo o custo, ter um título nobiliárquico. Hoje é imprescindível ter um título académico. Mesmo que não saibam ler nem escrever.

O que importa não são as competências são os canudos, os títulos. Não são avaliados por cumprirem as suas obrigações mas por terem uma boa posição na sociedade.

É a cultura da imagem, do que parece. É preciso ter assessores de imagem que cuidem bem da sua imagem, comunicadores que saibam escolher as melhores mensagens e relações públicas que as façam passar.

Quando as medidas que tomam são mal recebidas isso não quer dizer que são más mas sim que não foram bem explicadas. Quando um pobre não tem de que comer o que é preciso não é matar-lhe a fome mas explicar-lhe porque tem de continuar com fome.

Não será, exactamente, este o retrato do nosso país mas que tem algumas destas pinceladas lá isso tem. Ou não tem?

Somos um país adiado, desorganizado, “troca-tintas”, com muita gente em lugares de maior responsabilidade “armados ao pingarelho”.

Com mais organização, responsabilidade e trabalho e menos “peneiras” Portugal será melhor.

Publicado na edição nº 72 da revista Mais Alentejo