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Alvitrando

Aqui se dão alvíssaras e trocam ideias sobre temas gerais, o Alentejo e o poder local, e vou dando notícias das minhas reflexões sobre temas da actualidade e de acontecimentos que achar que devem ser divulgados por esta via.

Aqui se dão alvíssaras e trocam ideias sobre temas gerais, o Alentejo e o poder local, e vou dando notícias das minhas reflexões sobre temas da actualidade e de acontecimentos que achar que devem ser divulgados por esta via.

A culpa não deve ser dos cidadãos…

Finalmente realizaram-se as eleições presidenciais.
Foi um processo longo e complexo que contou com a apresentação de um dos maiores números de candidaturas de sempre. Longo porque durou meses e já quase toda a gente estava farta. Complexo, especialmente para a esquerda, porque não foi capaz de apresentar uma candidatura unificadora e mobilizadora, e, principalmente para o PS, porque escolheu mal o candidato que apoiou e não apoiou o candidato mais desejado.
Estas eleições tiveram um vencedor e muitos derrotados.
O vencedor foi Cavaco Silva, apesar de não ter obtido a votação que algumas sondagens lhe atribuíram e de ter sido eleito com a mais baixa percentagem de sempre. Com ele a direita chegou à Presidência da República pela primeira vez depois do 25 de Abril.
Cavaco Silva vingou-se, assim, da derrota sofrida frente a Jorge Sampaio, há dez anos. Agora, com ele na Presidência, é a vez da direita (PSD e CDS) esperarem a vingança da estrondosa derrota sofrida, há um ano, nas eleições legislativas.
Os derrotados foram vários.
Algumas empresas de sondagens. Não é fácil acreditar que, em apenas um mês, um candidato tenha descido cerca de 10% nas intenções de voto. Como também ninguém compreenderá como é que a sondagem feita por uma empresa apresenta resultados completamente diferentes dos apresentados por todas as outras feitas no mesmo período.
A esquerda, incluindo todos os partidos e todos os candidatos, que não conseguiu apresentar um candidato ganhador.
Principalmente o PS, cujo candidato por si apoiado – Mário Soares – obteve a pior votação de sempre. Apenas 14,3% dos votantes apoiaram a escolha da sua direcção.
Especialmente José Sócrates, não só porque subestimou a importância destas eleições e não foi capaz ou não quis apoiar um candidato capaz de unir e mobilizar toda a esquerda e de derrotar o candidato da direita mas também pelo política do seu governo, através da qual desbaratou a confiança de grande parte dos que nele confiaram nas eleições legislativas.
Por isso mesmo, não pode deixar de ser responsabilizado pelo desprestigiante resultado alcançado por Mário Soares e, principalmente, pelo facto da direita ter, pela primeira vez depois do 25 de Abril, conseguido eleger um Presidente da República.
Mas para além disso, José Sócrates viu o candidato socialista Manuel Alegre, a quem recusou o apoio do PS, obter mais 44% (345 273 votos) do que Mário Soares.
É caso para se dizer que, se Sócrates e o PS se conseguiram ver livres do soarismo, como alguns dizem, não conseguiram livrar-se de Manuel Alegre, como pretendiam, tendo o mesmo obtido um apoio dos portugueses bastante maior do que o obtido nas eleições para secretário-geral do PS.
Isto é, o país atribui um valor a Alegre que o seu partido e o seu líder não lhe reconhecem.
Podendo parecer que apenas diz respeito ao PS, esta questão interessa-nos a todos. A questão que reflecte uma falta de sintonia das estruturas partidárias com o país real, o nível de democracia interna dos partidos e o respeito pela ambição e direitos dos seus militantes.
É por tudo isto que a candidatura de Manuel Alegre, acentuada pela boa votação obtida, deve obrigar a uma grande reflexão dos partidos e dos cidadãos em geral quanto ao funcionamento daqueles e ao exercício da cidadania.
Repare-se que os candidatos que se apresentaram a sufrágio sem dependência, mesmo que aparente, dos partidos – Cavaco Silva, que não se quis misturar com os dirigentes dos partidos que o apoiaram, e Manuel Alegre, que se apresentou contra a escolha do seu partido e sem o apoio de qualquer outro – obtiveram quase dois terços dos votos (71,31%), enquanto os candidatos identificados e apoiados pelos seus partidos – Mário Soares (PS), Jerónimo de Sousa (PCP), Francisco Louçã (BE) e Garcia Pereira (MRPP) – pouco ultrapassaram um terço dos votos.
Só não vê o crescente distanciamento dos cidadãos dos partidos, especialmente dos seus aparelhos, quem não quer. A culpa não deve ser dos cidadãos…
A candidatura e a votação de Manuel Alegre colocam, com maior pertinência, uma outra questão, relacionada com aquela, que é a da necessidade da democracia participativa.
A democracia representativa, só por si, tem-se mostrado cada vez mais incapaz de responder satisfatoriamente às expectativas das pessoas e ao desenvolvimento da cidadania. O exercício desta reclama a participação voluntária e empenhada das pessoas.
Os cidadãos confiam cada vez menos nos representantes que elegem. E têm razão sempre que forem enganados, como agora está a acontecer com o governo a fazer o contrário do que prometeu.
O sistema de democracia representativa está a atravessar uma crise perigosa. Quanto mais os partidos reclamarem para si o exclusivo da intervenção política e os seus dirigentes fomentarem menos a participação dos seus militantes mais as pessoas tenderão a procurar outros espaços onde possam ter uma participação mais livre e activa.
Entramos agora num período de três ou quatro anos em que não está prevista a realização de qualquer eleição. É um período que pode facilitar a reflexão sobre estas questões. Esperemos que seja bem aproveitado.
Alvito, 23.01.2006

Texto meu, publicado na revista Mais Alentejo

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