O que se tem passado nos últimos anos em Portugal faz-nos temer pelo futuro da nossa democracia.
A luta fratricida travada entre os dois principais partidos do bloco central de interesses, envolvendo também o CDS, tem contribuído para uma maior descredibilização da política, dos partidos, dos políticos e, o que é mais grave, das instituições que deveriam constituir o sustentáculo do estado de direito, que deveria, por sua vez, suportar o regime democrático.
Tudo tem valido para se atacarem mutuamente, quer a nível partidário, quer mesmo a nível pessoal dos seus líderes e principais dirigentes.
A prática, desenvolvida há alguns anos por Paulo Portas quando era director do semanário “O Independente”, de condenar na comunicação social os políticos sobre quem, por qualquer razão, recaía qualquer suspeita ou a instituição por que era responsável era objecto de inquérito ou inspecção, tem vindo progressivamente a acentuar-se, nos últimos anos.
Recentemente, a troca de acusações entre líderes e outros dirigentes do PS, PSD e CDS têm posto em causa a capacidade da justiça e de outros agentes de controlo do funcionamento do estado de direito de exercerem as suas funções com independência e eficácia.
Transmitem a imagem de que não olharam a meios para alcançar o poder e que, uma vez no poder, tudo vale e tudo fazem para se amanharem e servirem os interesses dos seus amigos ou de quem lhes paga para os servir.
E também passa a imagem de que, tal como ontem, o que mais interessa é ser ex-governante para ocupar os bons lugares nas empresas a quem prestaram favores enquanto governantes.
É sintomático que perante as denúncias do novo bastonário da Ordem dos Advogados a chamar a atenção para a necessidade de moralização da sociedade portuguesa face aos casos de enriquecimento fácil e rápido sem justificação aparente, a maioria dos responsáveis institucionais tenha pretendido reduzir a situação à corrupção e, em consequência, reclamado que apontasse os casos em concreto e os participasse às entidades competentes.
Fizeram-se desentendidos, procuraram desviar as atenções do que verdadeiramente está em causa, na tentativa de que a onda de indignação que atingiu o país passe e tudo continue como dantes.
Alguns dos casos vindos a público e muitos outros de se que fala mais em privado pondo em causa o bom-nome de políticos, empresários e instituições têm de ser devidamente tratados e esclarecidos para que as pessoas voltem a acreditar no regime democrático e a confiar nas instituições do estado de direito.
Se tal não acontecer sairá reforçada a ideia, muito generalizada, de que “são todos iguais”, que “o que querem é tacho para se amanharem”, que, tal como Bordalo Pinheiro descrevia, “os políticos são os porquinhos que mamam na porca da política”, que a democracia não passa de uma panaceia para que uns se amanhem e ajudem outros a amanhar-se à custa da esmagadora maioria.
Se tal não acontecer é a prova provada de que o estado de direito não funciona. Se a justiça e outros agentes de controlo do funcionamento do estado de direito continuarem cegos e a fazer orelhas mocas a tudo que se está a passar como se nada de anormal se passasse demonstram que não só são incapazes como também dão cobertura a esses escândalos, que estão a minar o regime democrático, e permitem que se acentue a má imagem que se tem dos agentes políticos e empresariais e das respectivas instituições.
Afinal não era só fumo, seremos todos livres de pensar, acreditando que afinal é tudo uma corja de oportunistas que se estão a alimentar à custa do povo.
Este é um caminho perigoso para a democracia. Sabemos bem como os arautos dos regimes autoritários, “democracias musculadas” ou ditaduras, se esforçam por apresentá-los como menos susceptíveis de alimentar ou permitir essas situações. Não é por acaso que os ditadores ou líderes de “democracias musculadas” são frequentemente apresentados como seres inatacáveis nos seus princípios morais.
É evidente que tal não corresponde à verdade e que nesses regimes todas essas situações acontecem na mesma, por vezes, com maior intensidade. O que ajuda a passar aquela ideia é o facto da informação ser mais controlada e, por isso, os podres do sistema não são tão publicitados.
A democracia, para se impor, tem que demonstrar que é mais justa do que (e superior a) os regimes totalitários, principalmente quando nos aproximamos do centenário da instauração da República.
18.02.2008
Publicado na revista Mais Alentejo nº80