A propósito das comemorações do Dia da Erradicação da Pobreza, muita gente falou deste fenómeno, a maior chaga social dos nossos dias, como se tratasse de um fenómeno novo, que só agora foi descoberto e se ninguém fosse responsável por ele.
Ora, a pobreza não nasceu de geração espontânea e é um fenómeno que se tem reproduzido por gerações sucessivas.
Alguns dos responsáveis que falaram sobre o assunto, a começar pelo Presidente da República, fizeram-no como se nada tivessem a ver com ele, como se fossem simples observadores do que se passa na nossa sociedade e nunca tivessem assumido responsabilidades que lhes permitiam combater esse flagelo, se tivessem efectiva vontade de o fazer.
Se alguns falaram sinceramente preocupados e empenhados em combater efectivamente a pobreza, outros terão perorado sobre o tema por rebate de má consciência e outros ainda por indecoroso oportunismo político.
Dos vários debates que se realizaram sobre o tema uma verdade “lapalissiana” foi reafirmada, a de que a pobreza no nosso País, onde atinge 20% da população, tem causas estruturais, resultando da grande disparidade da distribuição da riqueza produzida.
Ou seja, para combater a pobreza no nosso país, ao contrário do que afirmam os defensores da inevitabilidade do sistema político vigente, não basta aumentar a produtividade e produzir mais, sendo fundamental distribuir de forma mais equitativa a riqueza produzida.
Ou seja ainda, mesmo com os actuais níveis de produtividade e de riqueza produzida seria possível reduzir significativamente o número de pobres, bastando para o efeito repartir melhor o bolo.
E esta alteração, quando for posta em prática, terá outro efeito induzido que é o de contribuir para o aumento da produtividade e da riqueza produzida.
Isto é, ao contrário do que afirmam os defensores do sistema estabelecido, é uma mais justa distribuição da riqueza que fará crescer a economia e não o crescimento desta que fará diminuir o número de pobres.
Mais do que palavras simpáticas e que soam bem nestas oportunidades exigem-se uma política, políticas e medidas práticas de efectivo combate a este flagelo social que a todos deve envergonhar, principalmente aos que têm exercido ou exercem funções de poder, que têm maiores responsabilidades e que já deviam ter feito mais para minorar os números da pobreza.
Não é com mesma política, com políticas que reforçam a concentração da riqueza e acentuam as desigualdades e medidas caritativas que se resolve o problema.
Mas é isso que tem vindo a acontecer e vai continuar a verificar-se.
Até quando vamos permitir que assim continue?
Lido na Rádio Terra Mãe, em 01.11.2007