Alvitrando
Aqui se dão alvíssaras e trocam ideias sobre temas gerais, o Alentejo e o poder local, e vou dando notícias das minhas reflexões sobre temas da actualidade e de acontecimentos que achar que devem ser divulgados por esta via.
08
Out 11

Há uns anos, quando manifestava o meu desagrado pelo aumento do preço da electricidade, um amigo disse: “Quero lá saber do aumento do preço da electricidade, quero é que as acções da EDP subam.” Isto aconteceu pouco depois da EDP ter feito uma das primeiras operações de venda das suas acções. Por ter comprado algumas dessas acções este meu amigo passou a valorizar mais sua posição de accionista da EDP do que a de consumidor de electricidade. E por mais que eu tivesse argumentado que consumidor seria sempre e que accionista poderia ser apenas durante algum tempo, ele insistiu em defender mais a sua posição de accionista.

Este é o princípio que está subjacente ao facto de haver tanta gente, que ambiciona naturalmente a ter uma boa vida, a agir contra os seus interesses, privilegiando a defesa dos ricos - o que gostaria de ser - em detrimento da posição que ocupa – assalariado, trabalhador por conta própria, micro ou pequeno empresário – e da sua situação de consumidor, que é tanto mais importante quanto menos tem.

Esta é a explicação para o sucesso do capitalismo, designadamente financeiro, de casino, que promete a todos a miragem de enriquecimento fácil, bastando para isso investirem o que têm e o que não têm em acções e outros “produtos” financeiros. A quem não tem dinheiro os bancos, quais beneméritos, emprestam (vendem) dinheiro que os investidores, que assim se empenham, “ignoram” que terão de pagar “com língua de palmo e meio. A ambição de serem ricos fá-los ignorantes.

E desta forma, para quem já não bastava os baixos salários e rendimentos arranja uns calotes de que dificilmente se vai livrar. E quanto mais se endivida mais encara o “jogo” como única saída para a crise. Em vez de procurar aumentar os seus rendimentos, trabalhando, produzindo ou vendendo mais, tenta a sorte no “jogo”, rezando aos “santos mercados” para que não se esqueçam dele.

São estas pessoas, que querem ser como a “outra gente” – os ricos – que deixam de se comportar como a “sua gente” e passam a ter comportamentos da “outra gente”. Para além da desvalorização da sua situação de consumidores, deixam de participar nas lutas e outras acções em defesa de quem trabalha, de tem trabalhou uma vida inteira e tem pensões de miséria, de quem é “escravo” do seu negócio, porque não se sentem na pele que têm mas na que gostariam de ter. E assim levam uma vida inteira a penar, tentando ter o que nunca terão, contribuindo para manter o sistema.

É essa lógica que leva estas pessoas a filiarem-se e a militarem ou, simplesmente, a votarem em partidos que sociologicamente não as representam e que não defendem os seus interesses mas apenas os da “outra gente”. E algumas, não satisfeitas com o abandono da “sua gente”, ainda se dão ao luxo de criticarem quem quotidianamente cumpre os seus deveres profissionais e luta em defesa dos seus interesses, procurando viver com dignidade com a “sua pele”.

Não é assim de estranhar que sejam “os que prometem tudo a todos” os que conseguem maior sucesso junto dessas pessoas. O seu ambiente psicológico é favorável a que assim aconteça. É por isso que nunca põem em causa o sistema mas apenas os seus protagonistas. Fazê-lo era desistir da sua ambição, era trazê-las para o mundo real. E a sua tentação para o abismo não lhes permite travar, quanto mais inverter essa corrida.

Por isso, não se compreende a surpresa que alguns dizem sentir com os resultados da governação do PSD e do CDS. Mas quem é que se pode surpreender com o endurecimento das medidas de austeridade impostas por este governo, com o ir buscar aos mesmos do costume para não tocar nos responsáveis pela crise? E também quem é que pode mostrar surpresa pelo facto do governo fazer o contrário do que os partidos que o compõem prometeram? Os partidos do sistema têm um objectivo central – manterem-no, dê por onde der! O seu grande princípio, de que não abdicam a não ser nas promessas eleitorais, é assegurar que tudo vai continuar na mesma. Por isso se revezam no poder, para assegurar que este se mantém. E têm como apoiantes decisivos os que ambicionando ser como a “outra gente” e viram costas à “sua gente”.

12.09.2011

Publicado da edição nº 107 da revista Mais Alentejo.

publicado por Zé LG às 13:31
Lopes Guerreiro, o que dizes dá realmente para refletir sobre o nosso comportamento colectivo. No fundo no fundo, todos desejamos viver bem e ser felizes, priveligiando sempre em primeiro lugar os que nos estão mais próximos.
Mas quem é que continua a acreditar que tudo estaria melhor se os votos da maioria se concentrassem naqueles que melhor discurso têm, sobre justiça social , equidade nos deveres e direitos, etc, etc ?
Eu nunca acreditei na sociedade baseada na compra e venda de acções. Uma coisa é certa, nunca apliquei um tostão das minhas pequeninas poupanças naquilo em que eu nunca acreditei, e sempre pensei que mais dia menos dia daria no que actualmente está a dar. Não colhi as benesses, mas também não sofro agora as dores deste parto sem epidural. A minha luta continua para que muitas verdades das mentiras sejam conhecidas pelos tais inocentes, cuja ignorância serviu a muitos pseudo praticantes da justiça social.
Manuel António Domingos a 8 de Outubro de 2011 às 20:56
Pois mas imagine que o MAD em vez de ser profissional da denuncia de erros processuais da cavandela, arranjava um emprego a sério, bem remunerado. E imagine que as suas pequenas poupanças aumentavam. Seria mau ter uma participação legal numa empresa que lhe rendesse um dinheirito extra? Eu nao consigo fazer poupanças nesta fase, mas se conseguisse, não vejo o drama de "comportamento colectivo" de que falam.
Anónimo a 10 de Outubro de 2011 às 09:02
Senhor anónimo;
Já agora e a talhe de foice, vc. que me considera profissional na denúncia de erros processuais da Cavandela. Acha que estou a fazer um bom trabalho ou não?
Não acha, que se este processo fôr arrumado na gaveta o mais rápido possível, é vantajoso para todos nós, munícipes de Castro Verde e cidadãos portugueses?
Quanto ás poupanças, de cada um que as tenha, aplicadas em acções de empresas que possam possibilitar uma boa remuneração das mesmas, não tenho nada contra, desde que cada um saiba dosear o montante do risco associado ao montante das suas poupanças.
Tome bem nota, que é para não confundir o meu posicionamento perante o mundo em que vivemos, e que pelos vistos é aquele em que a grande maioria das pessoas quer continuara a viver, apesar de todos os malefícios deste sistema capitalista. A grande conclusão da maioria do povo, é a de que por enquanto, este sistema é o melhor que se pode arranjar, comparando com o que já se conheceu até aqui. O que eu nunca acreditei foi que; este mundo ilusório, de todas as pessoas ficarem ricas, só comprando e vendendo papéis ( acções ) poderia durar muito tempo, sem que acontecesse o que todos nós conhecemos actualmente. Quantas pessoas investiram as suas poupanças de uma vida de trabalho, e agora ficaram na ruína, enquanto certos figurões se estão rindo?
Eu gosto é de ver empresas que produzam bens e serviços essenciais à nossa vida sobre este planeta. Não tenho nada contra o lucro dessas empresas , nem contra uma boa remuneração ( juros/dividendos ) das poupanças de quem nelas investe. Não esquecendo a aplicação de uma fiscalidade justa, e a regulação de um Estado verdadeiramente democrático.
Tenha um bom dia amigo! E nunca se esqueça daquela frase: Ai de mim se não fôr eu... ...
Manuel António Domingos a 10 de Outubro de 2011 às 10:11
então afinal concordamos.
abraço
Anónimo a 10 de Outubro de 2011 às 10:55
E já agora acrescento q mesmo q um dia tenha algumas poupanças (o que neste momento quase ninguem consegue), tb nao concordo em andar a comprar e vender papel, como diz. estou falando de investir em empresas seguras a longo prAZO e nao especulação. isso sou contra
Anónimo a 10 de Outubro de 2011 às 11:31
tb concordo q seria muito melhor viver como na urss. é que a mim tb não me importa ser pobre, eu odeio é que haja ricos.
cn a 9 de Outubro de 2011 às 00:57
Só que infelizmente esse tipo de sociedade já só vem descrita nos livros de História.

O que resta desse mundo é aquela que existe na Coreia do Norte, em que a maioria esmagadoura da população passa fome.
E a cubana em que há alguns mêses foram mandados para o desemprego 1 milhão de funcionários públicos. Para que os mesmos através de pequenos negócios ditos capitalistas, possam desenvolver a economia do país.

É pena que assim seja de facto, mas é a realidade da vida pura e dura. E que já lá não vai com balelas mais ou menos solidárias ou de uma esquerda inconsequente, nostálgica e desfazada dos tempos.
Além de não conseguir arranjar argumentos válidos ao devario do capitalismo liberal instalado em todo o mundo. A não ser umas quantas manifestações mais de caracter lúdico-cultural, do que projectos válidos de sociedade.

Também aqui se aplicaria a célebre canção do António Mourão, " O tempo volta para trás".
Bandarra a 9 de Outubro de 2011 às 12:32
Pelos comentários parece que estão satisfeitos com a situação e que não existe alternativa a ela a não ser a "urss"... As inevitabilidades históricas levam à acomodação e à desistência.
É obrigação de todos os que não concordam com a situação a que isto chegou procurarem e contribuirem para a construção de alternativas. Que não t5êm de ser obrigatoriamente as que existiram, ou, pelo menos, como terminaram.
Zé LG a 10 de Outubro de 2011 às 00:13
LG: Achas mesmo que alguem que chama devario capitalista aos tempos que vivemos, concorda com este tipo de sociedade?

O QUE NÃO QUERES PERCEBER DE FORMA ALGUMA, É QUE POR MAIS QUE BATAS NA VELHINHA, SE NÃO APRESENTARES UMA ALTERNATIVA CREDIVEL. É UM PURO EXERCÍCIO DE PERDA DE TEMPO.
E É ISSO QUE TU FAZES QUANDO ESCREVES ARTIGOS COMO ESTE.

Que acabam por ser sempre mais do mesmo, pelo que cada vez se tornam menos interessantes a quem os lê. Pois como disse, repetes sempre as mesmas e intermináveis balelas. Tu que até escreves bem, e podias com o teu trajecto de vida transmitir-nos coisas importantes e interessantes. Sobretudo até o que correu mal e porquê no tipo de sociedade que teve o seu expoente máximo na URSS.
Mas não, tomem lá mais do mesmo até ficarem de tal forma fartos e saturados que nem sequer ficam com vontade de os lêr.
Bandarra a 10 de Outubro de 2011 às 09:51
Registo a crítica, que agradeço.
Eu não tenho a solução, como se calhar ninguém a terá sozinho. Temos - todos os que não concordamos com o sistema vigente - de a construir. Para isso é preciso despertar e mobilizar quem possa estar distraido, acomodado, descrente. É isso que procuro fazer.
Zé LG a 10 de Outubro de 2011 às 11:29
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