Alvitrando
Aqui se dão alvíssaras e trocam ideias sobre temas gerais, o Alentejo e o poder local, e vou dando notícias das minhas reflexões sobre temas da actualidade e de acontecimentos que achar que devem ser divulgados por esta via.
03
Jun 11

(Para o filho de um homem que nunca foi menino…)

 

Olha, Carlos: depois de amanhã não é outro dia, é muito mais que domingo, é um outro ano que começa – e, por isso mesmo, estou hoje a falar contigo.

Depois de amanhã, Carlos, as coisas não deveriam estar como estão hoje, como decerto vão estar amanhã. Depois de amanhã, que é domingo, quando tu acordasses, quando acordassem todos os meninos, as coisas deveriam nascer diferentes.

Não falo, está claro, das árvores, dos montes, dos rios, dos mares, das estrelas, da lua, do verde das searas, do cheiro dos aloendros e das estevas, muito menos da passarada chilreando de galho em galho.

Não falo das coisas da Natureza, nem das outras coisas igualmente belas e puras que são os animais. Depois de amanhã, as coisas que deveriam amanhecer diferentes eram os homens.

Depois de amanhã, Carlos, quando tu acordasses, nenhuma criança, tua vizinha, ou de muito longe, deveria ter fome ou frio nem os pais sem ganho suficiente de lhes dar pão. Mais: quando tu acordasses, nenhum homem deveria estar em guerra, nenhuma arma deveria ter gatilho para disparar.

Depois de amanhã, Carlos, deveria nascer um Mundo novo, em que não houvesse meninos ricos e meninos pobres, porque os pais de todos os meninos tinham decidido unir-se numa só palavra, abraçar-se num só gesto.

Depois de amanhã, que é domingo, deveria ser o ano primeiro da criação de um Mundo diferente, aquele com que os poetas (ainda) sonham – mesmo os que nunca foram meninos.

Mas se não puder ser depois de amanhã, Carlos, que seja no outro dia, quando tu fores homem, quando forem homens todos os meninos de agora. Luta por isso, pá!

 

In “Vento suão – crónicas de uma cidade”, de José Moedas, editado pela AMDB em 1991.

publicado por Zé LG às 23:59
03
Jun 11

Esta crónica foi escrita como se não houvesse hoje, amanhã, nem depois de amanhã. Foi escrita, então, no dia seguinte a depois de amanhã. Que é o exato dia em que a porta chã do cadafalso se abre sob os nossos pés. É hoje, valha-nos o Senhor, que os carrascos da Pátria tomam o seu lugar em São Bento, não sem antes ajoelharem diante o báculo e o anel da troika. É hoje que começaremos a sentir no lombo o peso da mentira que toldou a campanha eleitoral, o valor efetivo da nossa desgraça, o preço inestimável a que vendemos ao estrangeiro o futuro dos nossos filhos. Esta crónica foi escrita no preciso dia em que Portugal entra em liquidação total e em que, por fim, as pessoas compreenderam o erro da sua escolha, a emboscada propagandística de que foram vítimas, a desesperança.

Ironia das ironias: ontem, embora perdendo em toda a escala, porque arruinaram e desprezaram o povo, todos os partidos se declararam vencedores. Há um novo parlamento de sapadores, eleito para abrir picadas aos blindados do FMI. Há um novo governo de franco atiradores, empossado para alvejar os mais expostos. E há este país em fim de festa, ressacado, destroçado e sem abrigo. Esta crónica foi escrita como se não houvesse hoje, amanhã, nem depois de amanhãs que cantam. Foi escrita com a certeza de que no dia seguinte a depois de amanhã é que elas cantam.

 

Paulo Barriga

(editorial do "Diário do Alentejo"desta semana, daqui, porque hoje – vá-se lá saber porquê -, não recebi o correio)

publicado por Zé LG às 23:25
03
Jun 11

Estou a gostar deste debate. E estou de acordo com JRdS: o problema não é deste ou daquele partido, do regime ser bom ou não, da dívida ser renegociada ou não: o que está cada vez mais em causa é o modelo de sociedade. E esta, em que vivemos, está a rebentar "pelas costuras". Os processos históricos são como um rio que corre no seu leito e no qual se vão acumulando pedras e outros detritos. De vez em quando a água vai-os empurrando e criando ramificações no leito, de forma lenta (são as reformas); mas há sempre pedras que ficam e se acumulam e, ao fim de algum tempo, criam barreiras a prenderem as águas e só uma torrente forte conseguirá abrir caminho entre elas (revolução). A Europa está assim: foi fazendo reformas, mas deixou muitas pedras, muitas coisas não resolvidas (entre elas a representação dos cidadãos ficou completamente entregue aos partidos, que cristalizaram como redes clientelares e por onde tudo passa: os negócios, o emprego, a justiça...) que já não são resolúveis por meras reformas. Aliás, há mesmo quem refira que está em marcha já uma profunda revolução de que apenas nos estamos ligeiramente a aperceber. Mais dívida, menos dívida, mais um ou menos um deputado, mais eleição ou menos eleição não é por aí o caminho: o caminho vai estar nas ruas, na insurreição dos milhões de desempregados, dos milhões de jovens sem emprego, nem futuro; dos que estão a ficar sem casa; dos que vivem a solidão das grandes cidades; dos que se indignam com o fosso cada vez maior entre pobres e ricos e com os que vão sofrer pelas actuais e pelas futuras cíclicas e cada vez mais constantes crises do capitalismo. A selva urbana, a civilização em que a Europa se especializou, está moribunda. A sociedade que aí vem terá que ser mais igualitária, mais solidária e mais respeitadora pela natureza e por tudo o que nos envolve. E, tanto como a necessidade de uma maior redistribuição da riqueza produzida, essa nova sociedade, que já se começa a delinear nos passos que estão a ser dados hoje, terá que assegurar a cada um de nós, cidadãos, meios e formas de representação mais directos, menos intermediados e assentes no exercício de uma democracia cada vez mais directa e personalizada.
São estes, a meu ver, os sinais que as "acampadas", a abstenção e os votos nulos em crescendo, o mal-estar juvenil e de outros sectores da sociedade e um sentimento colectivo de que alguma coisa terá que acontecer, representam e que indiciam profundas mudanças na sociedade, na economia e nas relações sociais tal como as conhecemos. Isto é que, com maior ou menor rapidez, com maior ou menor conflitualidade, com maior ou menor violência irá mudar a Europa.

Leia este comentário de EM e outros publicados aqui, num interessante debate sobre o que está verdadeiramente em causa e que foi atirado para segundo plano nesta campanha eleitoral.

publicado por Zé LG às 17:39
03
Jun 11

publicado por Zé LG às 15:36
03
Jun 11

A forma como são usadas as sondagens é, por vezes, condicionadora não só dos resultados eleitorais como também das últimas sondagens. É frequente estas beneficiarem os maiores partidos e apresentarem os maiores erros relativos em relação a alguns dos mais pequenos.

Nestas eleições, julgo que poderá ser isso que vai acontecer, não descendo o BE nem subindo o CDS conforme apontam as últimas sondagens.

Posto isto, deixo aqui as minhas previsões, desafiando os visitantes do Alvitrando a deixarem as suas, acompanhadas ou não de comentários:

PSD - 34%

PS   - 28%

CDS - 11%

BE  -  10%

CDU -  9%

publicado por Zé LG às 08:52
03
Jun 11

Defendo convictamente as ideias em que acredito com convicção. Mas tenho um enorme respeito pelas ideias dos outros, principalmente quando são diferentes das minhas.

Votei sempre e sempre votei no meu partido e nos que ele apoiou. Fi-lo por convicção, por sentido de responsabilidade, por dever, por disciplina. Mas respeito quem nunca votou ou só vota às vezes e quem vota branco ou nulo.

Diz-se que o voto é uma arma e que quem não vota deixa a escolha para os outros e que, depois, não tem razão para se queixar. E quem vota acreditando no que lhe prometem e depois não vê as promessas cumpridas? E quem vota uma e outra vez acreditando que vai ser desta que isto vai mudar e nunca muda (no essencial)?

No nosso caso, o “partido” mais votado costuma ser a abstenção. Quase sempre, o partido ou o candidato mais votado não consegue ganhar 30% dos eleitores. Seria caso - se não fosse tão grave -, para se dizer que o Povo é pacífico, não usa a arma que lhe ofereceram…

Sou pela liberdade de voto. Não creio que o voto obrigatório contribua para reforçar a democracia ou fortalecer o poder eleito. Que fazer então para ganhar os eleitores para votarem? – Parece-me que a resposta é complexa e simples ao mesmo tempo: respeitar os eleitores, falar verdade e cumprir o que se promete.

publicado por Zé LG às 00:51
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