Os partidos políticos constituem o principal suporte das democracias. Mas nem sempre assumem essa enorme responsabilidade. Existem mesmo situações em que, pela sua prática, desestabilizam e põe em causa a democracia. Os partidos políticos dispõem de uma dupla representatividade – representam os militantes que os constituem e os eleitores que neles votam. Essa dupla representação pode resultar de práticas mais ou menos próximas e participadas dos e pelos representados. É dessa prática que estes – os militantes e os votantes – se reconhecem melhor ou pior representados.
Ora, o que temos vindo a assistir é ao progressivo enconchamento dos partidos políticos ou, melhor dizendo, das suas direcções e dos seus eleitos. Estes, em vez de insistirem num esforço de envolvimento dos militantes, votantes e cidadãos em geral, limitam-se, muitas vezes, a usá-los para alcançar os seus objectivos e, uma vez alcançados / eleitos, esquecem-se de que sem o seu apoio não os teriam alcançado e passam, frequentemente, a ignorá-los, só deles se voltando a lembrar e a eles voltando a recorrer quando se aproximam novas eleições e deles precisam.
É frequente, as direcções partidárias não ouvirem os seus militantes antes de tomarem as suas principais decisões. Tal como é também frequente, os eleitos não ouvirem os seus apoiantes e populações em geral para as principais decisões que tomam, com consequências para o seu futuro colectivo.
Exemplo bem claro disso é o que se passa a nível autárquico. Antes das eleições, quantas vezes as listas, incluindo os principais candidatos, não são apresentadas como factos consumados, não permitindo aos militantes e outros apoiantes a discussão e uma efectiva participação no processo de decisão? O mesmo se passa na elaboração dos programas eleitorais. Mas, como se isso não fosse suficientemente negativo, o que acontece depois das eleições? Quantos reúnem com os apoiantes das suas candidaturas para com eles discutirem os resultados obtidos, as estratégias a seguir em função desses resultados e da análise efectuada ou para, simplesmente, lhes agradecerem o apoio que lhes concederam?
Ora, se este é o comportamento, cada vez mais frequente, das direcções dos partidos políticos e dos seus eleitos como podem eles esperar continuar a contar com a sua confiança, colaboração e dedicação? Quantas vezes não acontece começar logo no dia das eleições, ou, ainda antes, durante o processo de constituição de listas de candidatos e da elaboração de programas eleitorais a degradar-se a relação de confiança necessária entre os partidos e os seus candidatos e eleitos e os seus militantes, apoiantes e votantes?
É certo que, face à situação, cada vez mais generalizada, a falta de confiança num determinado partido e nos seus candidatos e eleitos não leva, necessária e imediatamente, à sua mudança para outro partido, tal é o descrédito em que todos (uns mais do que outros) estão a cair. É, por isso, maior a tendência para a abstenção, tal como se tem verificado.
É por isso também que, quando surge um novo partido, que se apresenta com a vontade expressa de ter uma praxis distinta das dos outros partidos existentes, mostre alguma capacidade de atrair novos votantes e antigos votantes de outros partidos que, pelas razões apontadas, deixaram de votar, engrossando a abstenção. É este o caso, mais recente, do Bloco de Esquerda.
Por isso, o Bloco de Esquerda assumiu uma enorme responsabilidade, com as crescentes e boas votações alcançadas – a de contribuir para a credibilização dos partidos e a consequente consolidação da democracia –, se conseguir ter efectivamente uma prática diferente, que assegure uma maior participação não só dos seus militantes mas também dos seus apoiantes e votantes e cidadãos em geral. Caso não o consiga, o Bloco de Esquerda será mais um – com maiores responsabilidades pelas expectativas que criou –, a contribuir para a falta de confiança dos cidadãos nos partidos e nos seus candidatos e eleitos e para a degradação da democracia.
(Alvito, 13 de Setembro de 2010)
Publicado na edição 102 da revista Mais Alentejo


