Alvitrando
Aqui se dão alvíssaras e trocam ideias sobre temas gerais, o Alentejo e o poder local, e vou dando notícias das minhas reflexões sobre temas da actualidade e de acontecimentos que achar que devem ser divulgados por esta via.
09
Nov 08

A (con)vivência democrática não é fácil, principalmente para quem, como nós – portugueses -, a praticamos há menos de 40 anos.

Ela exige respeito pelas opiniões e práticas diferentes das que defendemos, humildade para reconhecer e aceitar a vontade da maioria, mesmo quando dela discordamos, respeito e tolerância para com as minorias.

É mais fácil praticá-la quando somos maioria, principalmente quando esta é absoluta. Mas importa não esquecer que ter maioria não significa que se tem (sempre) razão. Ignorar isso é praticar mal as regras da democracia.

“Quem pode manda”, diz o ditado, mas não quer dizer que manda bem. Para mandar bem importa, para além de ter em conta opiniões diferentes, corresponder às expectativas e anseios da maioria.

Não se compreende, por isso, que a actual maioria que governa o país, como outras anteriores, procurem fazer passar a ideia de que usam a força da maioria para fazer as chamadas reformas necessárias para o país avançar.

Ou seja, tentam fazer crer que o Povo, a maioria das pessoas, não sabe o que quer, que quem governa é que sabe o que o Povo quer, ou, pelo menos, do que precisa.

Mas, infelizmente, esses tiques anti-democráticos também atingem algumas minorias, principalmente as que alguma vez já exerceram o poder.

É que acontece, com frequência, com os que tendo deixado de exercer o poder têm dificuldade em conviver com a situação de outros a governar e que, por isso, abandonam a organização que integravam para constituir outras concorrentes.

Isso verifica-se, com demasiado frequência, em organizações culturais, desportivas, recreativas, sociais, sindicais, empresariais, autárquicas, políticas… Quando perdem a maioria criam organizações similares em que possam voltar a mandar.

Se essa situação é prejudicial em qualquer parte aqui, no Alentejo, ainda é mais prejudicial, porque somos poucos e quanto mais divididos mais dificuldades temos em alcançar os nossos objectivos comuns.

Em vez de pretendermos impor as nossas ideias e intenções, os nossos planos e projectos a todo o custo, deveríamos antes tentar envolver e empenhar a maioria neles ou, se e enquanto não o conseguirmos, participar no que a maioria decidir.

Nada disto significa que devemos aceitar tudo o que nos propõem nem que temos de participar empenhadamente em tudo o que maiorias, que não nos integram, decidem.

Mas não será, seguramente, a melhor estratégia a seguir deixarmo-nos isolar, auto-guetizando-nos.

Por mais razão que tenhamos se não conseguirmos ganhar outros para o nosso lado, para a defesa das nossas causas, jamais conseguiremos criar as condições necessárias para as levar de vencida.

Por isso, sempre que não conseguirmos demonstrar a bondade do que defendemos e ganhar a maioria, o que devemos fazer é afirmarmos o que defendemos e criticarmos o que está errado, não nos deixando isolar e prosseguindo o combate em defesa das nossas posições no seio da maioria vigente.

“Isso é puro idealismo, acreditar que isso é possível é ingenuidade”, dirão alguns. Para mim é o único caminho a seguir para quem acredita genuinamente na democracia como “o menos mau de todos os regimes”.

Mas, para além das idiossincrasias individuais, há o interesse colectivo, que deve sobrepor-se aos interesses individuais.

Para quem diz defendê-lo, designadamente para os que exercem funções de maior responsabilidade em entidades colectivas e, principalmente, públicas não concebo que possa agir de outra forma da que, aqui, tenho tentado explanar.

Infelizmente, para o Alentejo e para o nosso Povo, há quem prefira outros caminhos…

 

Lido na Rádio Terra Mãe, em 05.11.2008.

publicado por Zé LG às 21:49
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